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quinta-feira, 4 de julho de 2013

O (precário) serviço de abastecimento d’água em Belterra


* Oti Santos.





Foto de Ronilson Santos.

É sabido que na década de 1930, Henry Ford optou por Belterra para prosseguir com o ambicioso projeto de produção de látex por razões bastante conhecidas como: a localização geográfica a partir da proximidade com Santarém e da parte navegável do rio Tapajós a embarcações de grande calado; o solo fértil; o nivelamento natural do platô no qual foi implantado o seringal e etc.





Quando da implantação do empreendimento, técnicos americanos identificaram talvez o maior dos desafios a ser enfrentado imediatamente: o abastecimento de água, pois a vila estava projetada para uma altitude de cerca de 160 metros acima do nível do mar e o riacho mais próximo distava cerca de três quilômetros do principal centro urbano.





Parte da recém-nascida Companhia Ford Industrial do Brasil procedente de Fordlândia, desembarca na comunidade de Samaúma em maio de 1934 e acampa as margens do riacho de mesmo nome, mais tarde apelidado pelos brasileiros de Igarapé do Acampamento e o vilarejo em sua embocadura, de Porto Novo, em razão do atracadouro instalado pelos americanos.





No “Acampamento” foram erguidas (provisoriamente) diversas edificações que passaram a ser utilizadas como residências; almoxarifado; escritório; escola; posto de saúde com ambulatório; cantina; oficinas; serviço de abastecimento de água e casa de força e luz.





Em pouco menos de dez anos, três milhões e duzentos mil pés de seringueiras estavam nascidos em uma área de 444 quadras (400m2 cada) e a dispersa cidadela com suas edificações em madeira totalmente concluída, inclusive com os serviços de atenção à saúde; educação; segurança; alimentação; energia elétrica e o abastecimento d’água.





Quanto ao atendimento a essa necessidade básica ao ser humano, a Companhia Ford decidiu ampliar o serviço de captação já implantado no “Acapamento” com a construção de uma estação tecnicamente adequada, com reservatório apoiado; um conjunto “motor bomba” de 15 por 15 KW no leito do igarapé e em cima, no interior da estação, dois conjuntos “motor bomba” de 125 KW por 100 KW cada um, para fazer a água potável chegar ao platô (vila) através de adutoras em “ferro fundido” de 6 polegadas numa extensão de pouco mais de dois quilômetros.





Em um traçado que se aproximava a uma linha reta em meio a vegetação primária, a rede hidráulica objetivava alcançar em primeiro plano a Vila Americana e em seguidas as três caixas d’água metálicas, importadas dos EUA, erguidas em locais estratégicos e com capacidade para armazenar 186.500 litros cada.





Uma trilha ao lado dessa rede foi aberta e mantida para dar suporte à assistência técnica necessária à mesma, e que logo passou a servir às aventuras joviais dos belterrenses que batizaram a sua parte mais íngreme de “Goela da Morte”.





Dos três reservatórios suspensos – implantados na Estrada 1 (capaz de atender as necessidades do principal núcleo urbano); Estrada 7 (responsável pelo abastecimento da Vila 129 e parte da Estrada 8/Vila Curica) e o da Estrada 8, no Coração, ao lado do campo de futebol do Ríver atual Santa Cruz (que atendia a parte Norte da Estrada 8 e a Estrada 10) – apenas dois resistem ao tempo.





Esse sistema, na época da Companhia Ford era eficaz, até por que nesse tempo o abastecimento era mantido como comunitário – a exceção das vilas Americana e Operária e dos prédios destinados aos órgãos de atendimento ao público – as torneiras se situavam às margens das Estradas e Vilas com intervalo de cerca de 100 metros de uma para outra e assim se manteve por mais duas décadas.





Com a pressão popular à Administração da Vila por instalações hidráulicas domiciliares e a falta de manutenção adequada diante das dificuldades em peças de reposição, com algumas sendo fabricadas em torno mecânico nas oficinas do “Cercado”, graças à iniciativa de bons e dedicados servidores, a partir dos anos 1970 o serviço de abastecimento d’água começou a dar sinais de sua incapacidade, com o líquido precioso já não chegando a Estrada 10; Vila 129 e Vila Curica.





Com a emancipação de Belterra na segunda metade dos anos 1990, o povo acreditou que esse obstáculo seria finalmente vencido. Porém, a crise chegava ao seu ápice logo após a realização do primeiro pleito municipal, quando em 27 de novembro de 1996 a Celpa interrompeu o fornecimento de energia elétrica à estação do Acampamento sob a justificativa do acúmulo de uma dívida impagável pelo Conselho Comunitário.





Diante do quadro de calamidade pública, o prefeito, a vice-prefeita e os vereadores recém-eleitos apelaram ao Dr. Ruy Correa, então prefeito de Santarém, que assumiu a responsabilidade pela pendência e a água voltava a jorrar nas torneiras belterrenses.





A partir da posse em janeiro de 1977, o prefeito, diante de tantas demandas, listou como prioridades: saúde, educação, regularização fundiária e abastecimento d’água. A realidade foi mudando com Hospital; parcerias com a UFPA e ISES para qualificação profissional; concurso público para educadores; imigração de produtores do Centro-Oeste e Sul do Brasil; liberação pela SPU de 1.700 hectares da Zona Urbana ao município; restauração das duas caixas d’água das Estradas 1, com reservatório apoiado e da 7 com implantação de poço profundo.





Nessa mesma gestão, também foram concretizadas as implantações de serviços de captação e abastecimento de água, através de poços na Vila 129 com restauração da rede; Estrada 8 com restauração da rede; Estrada 10 com implantação de rede; Tracuá; Trevo (Escola Vitalina Mota); Nova Aliança; Jenipapo; Revolta; Km 50; São Jorge; Poço Branco e Volta Grande.





Quanto ao Centro da Cidade, além da restauração da rede existente e implantação de novas redes nas Vilas Sondagem, Pequiá, Golfo, dentre outras; o então gestor apelou em diversas oportunidades ao governador no sentido de que o sistema fosse encampado pelo Estado, pois requer modernização com investimentos considerados elevados, muito além das possibilidades do município.





Além disso, sempre entendeu a estadualização como solução a essa demanda, pois que o município de Belterra não pode receber tratamento diferenciado de tantos outros, onde o Estado cuida do abastecimento d’água através da Cosanpa, ficando com a prefeitura a responsabilidade para com outras necessidades vitais à sociedade como saúde, educação, segurança, trânsito, etc.





O exemplo mais próximo é Santarém, onde o município dispõe de estrutura econômica e administrativamente superior a Belterra, mas, que igualmente a outras dezenas de municípios no Pará, tem o privilégio de ter o Estado a cuidar do abastecimento d’água aos seus munícipes, desonerando a prefeitura de tamanho fardo e a liberando para centrar atenção a outras tarefas.





Belterra, enfim, precisa da ajuda dos governos estadual e federal, pois apesar do esforço de tantos, com quase duas décadas de emancipação, continua com a população do bairro central e arredores a depender, quase que diariamente, do precário abastecimento de água através de carros-pipa com potencial risco a saúde dos seus consumidores.



*Jornalista e ex-prefeito de Belterra.

Nota do editor: textos, fotos, vídeos, tabelas e outros materiais publicados no espaço "comentários" não refletem necessariamente o pensamento do Portal Blog do Ronilson, sendo de total responsabilidade do(s) autor(es) as informações, juízos de valor e conceitos divulgados.

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